Passados para trás
Quem acompanha este blog deve ter reparado que há tempos eu não escrevo uma crítica. A culpa? Da minha última e infeliz escolha de leitura. O livro Deixados para trás, de Tim La Haye e Jerry B. Jenkins, sucesso de vendas nos EUA, se revelou um livro enfadonho, onde a única ação interessante se passa logo no primeiro capítulo. O livro, que rolou na minha mão por quase um mês, conta a história de um fenômeno chamado "Arrebatamento", onde todos os cristãos verdadeiros foram levados aos céus de uma hora para outra, causando caos e determinando uma nova ordem mundial para os que ficaram. Parece interessante? Só parece. Na verdade, o tal "Arrebatamento" acontece no início da história, e, depois de descrever as consequências e a reação de cada um ao ocorrido, o livro não tem mais nada de original para contar. Um pequeno líder romeno se revela o anticristo e consegue se alçar ao cargo de presidente da ONU, criando um governo mundial, em uma conspiração que faria Delúbio Soares e a bandalha do governo atual parecer um joguinho de Monopólio. A insistência dos autores em colocar todos os rasos personagens para "orarem" e se converterem a uma nova e oportunista religião me fez pensar se esssa ficção não teria sido encomendada pelo bispo Macedo da Universal. E entre fanáticos religiosos, conspirações governamentais e jornalistas inescrupulosos não se salva ninguém. Nem o leitor, que amarga mais de quatrocentas páginas de narrativa insossa, mal escrita e mal diagramada. E a tortura não acaba aí, se arrasta por mais uns 9 livros que fazem parte da série, para quem tiver coragem de chegar ao final. Ficção científica da pior qualidade.
Escrito por Fernanda Garrafiel às 18h10
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Uma tiete solta na Flip
 Marcelo Fois |  Luiz Alfredo Garcia-Roza |  Jose Latour |  Salman Rushdie |  Michael Ondaatje |  Jeanette Winterson |  David Grossman |  Luiz Fernando Veríssimo |
Todos já falaram da Flip, por isso eu não vou repetir que Isabel Lustoza conseguiu se sobressair em uma mesa com Jô Soares, que Jabor causou uma polêmica que ultrapassou as paredes da Tenda dos Autores e foi discutida em todos os cafés de Paraty, que MV Bill pôs a platéia para chorar, que Ariano Suassuna foi um show, o melhor da Flip. Vou falar sobre o meu lado tiete, que me faz entrar nas filas de autógrafos quilométricas dos meus autores preferidos, e nas dos autores que me chamaram atenção durante as palestras. E aqui estão meus tesouros, devidamente scaneados e exibidos como troféus, resultado de brigas acirradas pelos últimos exemplares na livraria do evento e algumas horas em pé para conseguir uma assinatura e uma palavra simpática dos ídolos. Claro que cada assinatura conseguida vem acompanhada de uma pequena história. Marcelo Fois foi extremamente simpático, feliz porque além de mim, só vi outra pessoa na fila que queria o autógrafo dele. Ou outros estavam ali para Jose Latour e Garcia-Roza, que se sobressaíram no debate. David Grossman e Michael Ondaatje parecem dois lordes ingleses, e Salman Rushdie acabou assinando somente o nome, porque tinha muita gente na fila. Como Rushdie era figurinha fácil nas ruas de Paraty, tive vontade de andar com o livro dele debaixo do braço, abordá-lo na rua e pedir: Please, complete.. To Fernanda, kisses, hugs, regards... Mas confesso que não tive coragem. Jeanette Winterson não se fez de rogada e sentou em cima da mesa para autografar. E Luiz Fernando Verísismo me disse que a filha dele também se chama Fernanda. Pena que nessas horas eu me transformo em uma idiota completa, meus neurônios me abandonam e meu queixo caído só me deixa dizer ahã.. qualquer coisa mais inteligente fica para a próxima vez. Faltou o autógrafo de Suassuna? Mas, eu estava lá, com o Auto da Compadecida debaixo do braço, na fila de quinhentas pessoas que também queriam um tempo com o escritor. Percebi que a fila não andava, e fui ver o que estava acontecendo. Ariano conversava com cada uma das pessoas da fila, escrevia uma dedicatória no livro e batia foto. Fiquei encantada, mas percebi que não teria este privilégio, a fila jamais andaria o suficiente. E de fato, depois de duas horas, um cansado Suassuna deixou o local, sendo aplaudido por todos os frustrados remanescentes da enorme fila. Fica para a próxima.
Escrito por Fernanda Garrafiel às 17h01
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Protesto!
Hoje escrevo para protestar. Protestar contra literatos pernósticos, que do alto da sua empáfia condenam qualquer manifestação de incentivo à leitura que cresça além do seu mundinho intelectual restrito. Outro dia, vi em uma lista de discussão de literatura desdenharem da FLIP, Festa Literária Internacional de Paraty, acusando-a de ser elitista e de não trazer autores significativos. O que eu acho importante e que devia ser valorizado é que, em um país de não-leitores, dez mil pessoas vão se deslocar para uma pequena cidade histórica do estado do Rio de Janeiro para curtir.. literatura! Algumas estão indo para ver Jô Soares? Com certeza, mas vão conhecer Ariano Suassuna "por tabela". Estão indo para ver Salman Rushie? Mas esbarrarão também em Jeanette Winterson. Aliás, a mania de despresar toda literatura comercial também é condenável. Em um país de não-leitores, escritores como Paulo Coelho, Dan Brown e Jô Soares vendem mais de um milhão de livros cada um. Boa literatura? Não. Mas não podemos ignorar de três milhões de cérebros se abriram para a leitura. Agora eles lêem Harry Potter, depois O Código da Vinci, e um dia quem sabe chegam a Kafka. O incentivo à leitura precisa ser popular para atingir grandes massas. O discernimento entre boa e má literatura vem depois, com a prática da leitura. Quem nunca se debruçou sobre Agatha Christie e Sidney Sheldon que atire a primeira pedra. Ou melhor.. quem nunca se debruçou sobre Agatha Christie ou Sidney Sheldon que se cale, porque se nunca conheceu o que é apenas comercial, não pode saber o que é realmente bom. E as idéias pré-concebidas para definir boa literatura não contam.
Escrito por Fernanda Garrafiel às 12h01
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Já comprei livro pela capa, pelo titulo, pelo autor. O Calígrafo de Voltaire eu comprei pelo charme do autor. Pablo de Santis é um promissor escritor argentino, ir-re-sis-tí-vel. Não se fie pela foto na orelha do livro, ele é muito mais interessante ao vivo. E sua narrativa também tem estilo, é envolvente. Mas se perde na trama do calígrafo que recebe uma missão de Voltaire e se enreda numa trama envolvendo autômatos (???) e um romance com uma garota tão estranha quanto a história contada. Pablo de Santis não conseguiu se decidir entre o romance histórico, o policial e... a ficção científica. O autor diz que a história é metafórica, que é sobre o poder da palavra. Mas a metáfora ficou perdida nos acontecimentos absurdos e inverossímeis relatados.
E Voltaire? Sabem aqueles filmes B, que contratam um ator que um dia foi famoso para fazer uma ponta, só para poder colocar seu nome no cartaz e fazer chamariz? A função de Voltaire no livro é essa: chamar a atenção de nós, leitores incautos. O calígrafo poderia ser de Voltaire, de Sinclair, de José. Não faz diferença. Sua única função na história é passar a missão para o personagem principal. E a única diferença do livro para nossos contemporâneos filmes B é que o pobre Voltaire não teve a opção de não participar deste embuste.
Escrito por Fernanda Garrafiel às 11h09
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De volta aos anos 20...
Eu nunca fui a favor do patriotismo gratuito, que aplaude qualquer produção brasileira só por ser nacional. Valorizo o que acho realmente bom, independente de nacionalidade. O movimento antropofágico, a semana de 22, o modernismo no Brasil, não passaram de uma sombra da verdadeira revolução cultural que estava acontecendo na Europa. Por pensar assim, nunca dei valor a Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Patrícia Galvão e outros expoentes dos nossos anos 20. Conhecer melhor Patrícia Galvão, através do livro auto-biográfico lançado recentemente pela editora Planeta, foi uma surpresa para mim. O livro é na verdade uma carta escrita com maestria por Pagu a seu marido Geraldo. Patrícia Galvão conta suas desventuras, como seu casamento com Oswald de Andrade, seu envolvimento com o comunismo, suas viagens. Apesar do título piegas, Paixão Pagu nos fornece um retrato surpreendente de Oswald, retratado como um libertino promíscuo e principalmente do movimento revolucionário no Brasil, que nos mostra um partido comunista ditador e muitas vezes realmente subversivo. Se o livro não redimiu o movimento cultural dos anos 20, com certeza fez com que eu admirasse um de seus principais personagens.
Escrito por Fernanda Garrafiel às 11h59
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Margaret Atwood é uma senhorinha branquinha, magrinha, cabelos loiros, com cara de vó, muito simpática. Quando comprei o seu livro Oryx e Crake, apesar do rótulo de ficção científica, estava imaginando uma história de amor cibernética, com triângulos amorosos pós-modernos e um final feliz. Ledo engano...
Pois esta senhorinha acabou com a civilização que conhecemos, deu à luz uma espécie humana mutante com características criadas em laboratório, seres perversos e inteligentes para infernizar a vida desses "humanos", explodiu a camada de ozônio e tornou a terra um planeta inóspito. Uma das ficções mais sinistras que eu já li, escrita de uma maneira que faz com que tudo pareça perfeitamente possível. Uma espécie de frango criada em laboratório para alimentar os humanos, sem cabeça ou capacidade para se locomover, me tirou o sono por dois dias.
Os antigos livros de ficção científica erraram ao preconizar um século XXI totalmente automatizado, com carros voadores, casas auto-suficientes, robôs escravos para nos servirem. Por isso, eu tenho esperanças que as previsões a respeito do futuro da engenharia genética, as consequências dos maus-tratos ao nosso planeta e da falta de escrúpulos de alguns cientistas também fiquem somente na imaginação fértil dos nossos escritores. Ou eu me demovo da minha idéia de viver eternamente e não quero sequer chegar ao século XXII.
Oryx e Crake Margaret Atwood Editora Rocco
Escrito por Fernanda Garrafiel às 20h06
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Happy Bloomsday, Joyce.

Admiro Joyce mais pela sua biografia que pela sua obra. E somente porque conheço melhor sua biografia que sua obra. Apesar de ser incompreensível para uma leiga como eu, Joyce sem dúvida marcou sua passagem pela literatura. Por isso, hoje eu lhe rendo minha homenagem. Mas, como designer, terreno que eu sei onde piso.
Escrito por Fernanda Garrafiel às 02h34
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Eu e o grande Chico
Quando eu ainda estava na faculdade, tive meu primeiro contato com o Chico Buarque escritor: li Estorvo, livro lançado com pompa e circunstância, com direito a sobrecapa de acetato e grande destaque na mídia. Achei o livro pretencioso, uma tentativa tosca e simplista de lamber os pés do estilo de um dos meus grandes ídolos da literatura, Kafka. Depois da decepção de Estorvo, ignorei o Chico Buarque escritor por mais de dez anos.
Ano passado, eu estava na Festa Literária Internacional de Parati (FLIP) e um dos meus escritores prediletos, Paul Auster, iria dar uma palestra junto com Chico Buarque. Como foi impossível conseguir ingressos para assistir ao vivo a palestra, me contentei em assistí-la de um telão na rua e depois, com Trilogia de Nova York debaixo do braço, tietar Paul Auster na fila dos autógrafos. Como Chico Buarque também iria dar autógrafos na mesma hora e na mesma mesa, a fila se estendia por quase todo o centro histórico de Parati. A organização resolveu então distribuir 200 senhas. Eu fui uma das contempladas, e estava de posse da senha 72, quando percebi que provavelmente era uma das poucas pessoas na fila que sabia quem era Paul Auster e que queria o autógrafo dele. Como os excluídos começavam a se mobilizar para fazer protesto, achei sensato comprar o livro de Chico Buarque, de um oportunista que vendia na hora para quem esperava na fila. Fiz isso para me salvar do linchamento certo, se passasse direto pelo Chico, em direção ao Paul. Comprei Budapeste, que estava sendo lançado. A fila andou, e eu fui empurrada pelo fluxo e pelos seguranças em direção ao Chico, tão atrapalhada que quase entreguei Trilogia de NY para ele assinar. Mas deu para me organizar, tirar foto e pegar o septuagésimo segundo autógrafo que Chico dava aquela noite. Meio rabiscado e ilegível, é compreensível, mas o cantor foi muito simpático comigo, com todos os 200 que passaram por ali e com a multidão histérica que não conseguiu uma senha e ficou gritando seu nome atrás de um cordão de segurança.
Quase um ano depois, às vésperas da FLIP de 2005, resolvi ler Budapeste. E me surpreendi. Adorei a história, adorei o estilo, adorei o final, quase surrealista. Os capítulos longos, que podem assustar quem procura uma leitura fácil, fluem deliciosamente. A construção das frases é criativa, é prazeiroso acompanhar o fluxo de pensamento do personagem e da ação da história. Eu adoro finais surprendentes, e nem nisso o livro decepciona.
Enfim, eu, que devorei Budapeste em dois dias, tive que me curvar à multidão que se acotovela para adorar seu ídolo, e dar razão a ela. Chico Buarque é o máximo.
Escrito por Fernanda Garrafiel às 02h21
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Hoje eu estava voltando para casa de ônibus, muito bem acompanhada de Ernest Hemingway, quando sentou-se ao meu lado uma criatura daquelas que deve passar a metade do dia numa sala de musculação e a outra metade tomando bombas para os músculos não murcharem até a hora de voltar a academia no dia seguinte. Depois de nós dois nos ajeitarmos no espaço exíguo das duas cadeiras, o carinha puxou... pasmem!! Um livro!!! Fiquei até curiosa para saber que pérola da literatura estaria lendo o moço, eu com minha cabeça preconceituosa que acha que esse tipo de cara tem os neurônios concentrados na cabeça errada. Mas, como hoje em dia qualquer olhada diferente pode ser interpretada como um interesse maior, preferi guardar minha curiosidade para mim.
Depois de um tempo, resolvi apreciar a paisagem noturna e fechei o meu livro. O cara fechou o dele também. Desliguei a minha luz de leitura. Ele desligou a dele também. Guardei o livro na bolsa. Ele guardou o dele na mochila. Cruzei as pernas, e abracei minha bolsa. Ele me imitou!!! O que foi isso??? Coincidência?? Um novo tipo de paquera?? Uma experiência neurolinguística??
Cheguei no meu ponto e desci do ônibus. O carinha continuou lá. Ufa... Mas... será que ele vem amanhã? :)
Escrito por Fernanda Garrafiel às 00h22
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Saudade dos anos 20
Depois da Primeira Guerra Mundial, a valorização do dólar e o baixo custo de vida na Europa, principalmente em Paris, levou grande parte das cabeças pensantes da época a trocar de pátria. Este êxodo cultural tornou Paris um paraíso frequentado por expoentes e futuros expoentes da literatura e das artes. Ali, conviviam nomes como Ernest Hemingway, Ezra Pound, Gertrude Stein, James Joyce, Scott Fitzgerald. Podia-se frequentar a livraria de Sylvia Beach, esbarrar em Henry Miller, discutir cinema com Eisenstein, ser fotografada por Man Ray. Como não querer ter participado dessa efervecência cultural?
Para nós, exilados no século XXI, resta ler sobre os anos 20. Há três livros que são complementares e nos dão uma visão do que foi Paris nessa época. Comece com Shakespeare and Company, uma livraria na Paris entre-guerras, de Sylvia Beach. O livro conta a relação da dona desta importante livraria com seus frequentadores. E que frenquentadores! Só para se ter uma idéia, Sylvia Beach foi a editora de Ulisses, de James Joyce, seu amigo pessoal. Depois, parta para Paris é uma Festa, de Ernest Hemingway. Hemingway foi frequentador da Shakespeare and Company, e das rodas de Gertrude Stein. Você vai ouvir as mesmas e outras histórias, vistas por outro ângulo, contadas por um dos grandes escritores da época. Por fim, com Os Anos Loucos, de Willian Wiser você terá a visão de um historiador sobre os anos 20.
Será que alcançaremos novamente este despertar para a cultura? Ou será que olhamos a nossa era tão de perto que não conseguimos enxergar com clareza seus personagens principais?
Escrito por Fernanda Garrafiel às 00h20
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 Comprei O Suicida Feliz curiosa para saber o que tinha por trás de um título tão bizarro. Como boa designer, prestei atenção na capa e gostei do visual. E o livro é isso: um título que chama atenção e uma boa capa.
A história, que junta um cabeleireiro que não é gay, uma executiva da indústria da televisão e um escritor de piadas mórbidas suicida não tem nada que chame a tenção, fora o forte sotaque português dos personagens. Quando percebi esta peculiaridade, fui ler sobre o autor, Paulo Nogueira. Ele é um brasileiro radicado em Portugal, e que pelo visto esqueceu a própria língua. Tudo bem, eu sei que a língua é a mesma. Mas para a edição brasileira ele podia ter maneirado nos "estamos a fazer", "estou a pensar", e outras expressões tipicamente portuguesas.
Ah!! Para finalizar: se você for ler o livro, depois me escreva, dizendo qual a relação da foto da capa com a história. Minha vã filosofia não conseguiu alcançar tamanha abstração.
O Suicida Feliz Paulo Nogueira Editora Planeta
Escrito por Fernanda Garrafiel às 15h22
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Um filme que merece virar livro
Vi Código 46, filme dirigido por Michael Winterbottom, com Tim robbins e Samantha Morton. A história é aparentemente simples: um investigador é enviado a Xangai para desvendar um caso de fraude, e se apaixona pela suspeita. O filme se passa em um futuro próximo, e, sem orçamento para mostrar as inovações tecnológicas de um Minotity Report, o diretor se fixou nas inovações no comportamento humano. Claro que isso tornou a história muito mais interessante do que se ele tivesse se detido em computadores mirabolantes e carros impossíveis. Sem a parafernália tecnológica que transforma filmes em carros alegóricos futurísticos e sem conteúdo, Código 46 consegue fazer uma reflexão consciente sobre os efeitos da manipulação genética, da massificação, do controle, no dia-a-dia do cidadão comum. Mas, apesar de vários pequenos detalhes interessantes, o andamento do filme é lento. E é nos diversos silêncios que a imagem não pode traduzir que um escritor de talento construiria um livro que traria personagens mais elaborados, descrições detalhadas do modus vivendi da época retratada e ricas discussões sobre os temas polêmicos do filme. Vou aguardar, quem sabe um dos gênios da ficçao científica não se interessa?
Escrito por Fernanda Garrafiel às 23h33
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Sonhos e realidade
 Eu sempre quis ter uma estante até o teto, com uns quatro mil livros, e bater uma foto com cara de intelectual, na minha escrivaninha na frente da estante, que ocuparia a parede inteira. Por enquanto, a minha estante tem um metro e meio de altura e mais ou menos quinhentos livros. Na foto eu estou sentada no chão e longe de ser uma intelectual. Mas li todos os livros da estante. A distância entre um sonho e a sua realização é só o tempo. O resto a gente corre atrás.
Escrito por Fernanda Garrafiel às 01h58
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Quando o filme é melhor que o livro
Desde que eu me conheço por gente eu ouço falar do Senhor dos Anéis, livro que arrebanhou uma legião de seguidores, é tido como o precursor do RPG antes mesmo desse jogo ser desculpa para eliminação de pais, mães e pessoas indesejáveis. Quando Peter Jackson lançou sua versão para o cinema, eu fui uma das que estava na fila na primeira semana de exibição, e fui uma das que quase dormi depois de três horas de projeção. Mesmo assim, fiquei curiosa para ler o livro, e aproveitei o senso de oportunidade das livrarias, que se entupiram de várias novas edições da obra, escolhi a capa mais bonitinha e me dispus a ler as 1.200 páginas da saga. Eu sei que vou entrar na lista negra dos admiradores de Tolkien, e provavelmente serei a próxima vítima morta dos jogadores de RPG, mas eu achei "O Senhor dos Anéis" prolixo, chato, com uma história que podia ser interessante se não tivesse que ser costurada entre canções inúteis, descrições longas de paisagens óbvias, ações que nada acrescentam aos fatos que interessam. Em outras palavras, as sofridas 1.200 páginas podiam ser resumidas em 200, ou, como Peter Jackson fez, em um filme. Sim, porque, para mim, a ineficiência do livro ressaltou a qualidade do filme. O diretor conseguiu captar o clima, a essência dos personagens e o que é importante para se contar uma boa história. Tolkien que me perdoe, mas o filme suplantou o livro. E, preservando a minha vida, salve os jogadores de RPG!
Escrito por Fernanda Garrafiel às 00h29
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Sempre admirei escritores que utilizam uma história como pano de fundo para expor suas idéias. Thomas Mann utiliza este recurso elevado à décima potência. A história adquire status secundário, e o leitor lamenta quando o personagem realiza um movimento que desvirtue o fluxo de pensamentos criado pelo autor.
À primeira vista, Morte em Veneza é uma história sobre a paixão platônica de um escritor consagrado e de idade avançada pelo adolescente Tadzio. Após algumas páginas, percebe-se que o verdadeiro tema do livro é a relação entre a estética, o belo, valores, e a morte. No mesmo livro temos Tonio Kroger, uma história autobiográfica sobre o passeio de um escritor através da Europa e de suas idéias. Uma frase neste livro vale a pena ser sublinhada: "Se lhe perguntavam o que afinal queria ser, dava respostas variáveis, pois costumava dizer (e também já o havia anotado em seu íntimo) que trazia em si possibilidades para mil formas de existência, juntamente com a secreta convicção de que no fundo elas não passavam de impossibilidades..." Para mim verdadeira, desesperançosa, e muito atual.
Escrito por Fernanda Garrafiel às 00h23
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